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O Roubo

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Sabe aquele tipo de rapaz que adora cozinhar? Não. Não estou falando de um chef de cozinha e sim daquele que promete mundos e fundos e, no final, vira um matemático. Sempre saindo pela tangente…

Eu, há 3 semanas, havia dado um basta ao meu paquera fixo. Nunca concordei com relações inconstantes, mas essa passava dos limites. Tudo bem que eu só consegui fazer isso quando eu estava em casa (detalhe: nem estava pensando em sair) e ele ligou me chamando para o cinema. Como toda mulher sabe, há sempre um ritual antes de qualquer saída com qualquer possibilidade de futuro ou apenas, uns momentos de alegria. Eram 14h e marcamos 17h. Em 3 horas até dava tempo de me arrumar.

Às  17:45, ele estava num barzinho bêbado, me chamando para buscá-lo porque ele não tinha condições de distinguir entre Red Label ou Ice. E foi assim, num passe de mágica, que a nossa história chegou ao fim…

 

Era mais uma linda tarde de domingo…

…e eu estava a pensar como os homens conseguem segurar a vontade de ligar para uma mulher? Na verdade, como eles nem pensam em ligar para discutir ou argumentar. Ou seja: por que o desgraçado não pensou em me ligar nem para pedir desculpas pelo ocorrido!!!
Possibilidades: orgulho; falta de interesse; vergonha; quem era mesmo a mulher que ele deu o fora no dia do bar?

Passeando pelas ruas da cidade fiquei a buscar uma solução para o problema. Decidi levantar o queixo, estufar o peito, jogar fora todos os lenços de papel que estavam no carro. Acabou! Começaria uma nova vida sem pensar em homens. Nunca mais me aventuraria com alguém tão inconstante.

Estava passando pela praia e o sol estava perto de se pôr. Achei que ali seria um bom começo para esta nova vida que eu queria levar.

Parei em um estacionamento de frente para o mar e os últimos raios de sol acariciariam a minha face enquanto deixava, em suas costas, apenas leves sombras. Eu, embevecida com o cenário, não percebi que as sombras não passavam de 2 homens que estavam no mesmo local, não para apreciar a poesia de um final de dia ensolarado e, sim, para levarem o meu carro com eles. Enquanto Drummond trimilicava no túmulo, estes dois seres vivos vindos das profundezas das trevas  me jogavam no chão e mandavam eu entregar a chave do carro e não olhar para trás.

Pronto: o sol se pôs, enquanto meu carro tomava rumo pelas ruas da cidade cantando pneus com dois sujeitos que nunca irão saber que a essência que pairava no ar dentro do meu veículo era Le Lis Blanc e que Lara Pausini estava falando de amor pelas bocas do meu som de MP3. E eu estava solteira. O que poderia ser pior? Fui andando pela rua e um casal de idosos acabou me ajudando.

Levaram-me até a delegacia mais próxima. Registrei queixa e esperei uma amiga minha chegar para me levar para casa. Em casa, e com uma fita mental no Replay, tomei um banho bem quente e fiquei imaginando todas as possibilidades de que tivesse sido diferente se eu tivesse agido de uma maneira diferente, apesar de que, no final das contas, você nunca pode fazer nada diferente mesmo.

Deitei e dormi um sono profundo, sem sonhos, sem celular, sem carro, sem documentos, sem namorado. Acordei atrasada (porque o meu despertador era meu celular) e fui para o trabalho de taxi. Tentei pensar positivo: tudo novo de novo – é segunda, é vida nova. Poderia incluir na lista de novidades da minha vida um carro novo.  Por que não? Como não tenho telefone fixo em minha casa e não tinha mais celular, chegando ao trabalho já havia 20 recadinhos, todos preocupados, solícitos e amorosos. Um deles era do cozinheiro. É impressionante o que uma amiga pode fazer por você no período de uma noite.- ela era a melhor assessora de imprensa para assuntos pessoais que eu já vi. Depois de tantos recados, fiquei espantada de como Lula ainda não havia mandado o seu assessor me telefonar. Decidi que não queria retornar nenhuma ligação. Queria só esquecer o assunto. MSN? Só daqui a uma semana, quando a poeira baixasse. Fiquei o dia inteiro concentrada nos meus relatórios e quase me esqueci de almoçar. À noite, exausta e com todo o trabalho concluído, uma colega de trabalho se comoveu com a situação e decidiu me dar uma carona. Ao chegar ao meu prédio, o porteiro me abordou com a correspondência e avisou que um rapaz estava a me esperar no lobby. Fiquei ansiosa e com vontade de sumir. Nem dava tempo de tomar um banho. E eu, no lobby, cara a cara com o cozinheiro e muda que nem uma porta ao vê-lo com um buquê de rosas vermelhas na mão.

Ele- Eu soube do que aconteceu, sinto muito. Pensei até em ligar estas semanas que passaram, mas achei que você estava chateada e tudo mais. Achei que você não iria querer falar comigo.
Pausa para reflexão: o problema dos homens sempre foi ACHAR. Se eles não achassem tanto, não haveria tantas guerras no mundo.
Aceitei o buquê com um sorriso meia-boca. Quando ele tentava pensar em mais alguma merda para falar eu retruquei:

EU - As flores são lindas. Muito obrigada.
Ele - Pois é. Uma vez,  fomos no cinema e, no filme, o cara dava um buquê deste para mulher. Notei que você gostava porque você soltou um suspiro.

Pausa para reflexão 2: quer dizer, ele tem a sensibilidade de perceber o meu suspiro mas o seu achômetro não permitiu que ele me ligasse dia nenhum após o ocorrido no bar.

Pausa para reflexão 3: As mulheres que matam os seus maridos em momento de raiva: homicídio culposo ou doloso?

Sem ter uma faca na mão, só me restou chamá-lo para um café. Contei toda a história do assalto, conversamos sobre os dias que se passaram, nos quais estivemos separados, ele se ofereceu para me levar no trabalho as 8 e acabamos deitados no sofá com uma leve brisa batendo em nossos corpos.

Ao final desta frase, percebi que a poesia (e o meu cozinheiro), de repente, estava voltando para a minha vida de uma maneira muito sutil: em forma de delivery.

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