Quando se tem 30 anos e está solteira, tem-se um problema sério nas mãos: você já atingiu um grau de maturidade que lhe permite não pensar só em relacionamentos. Afinal, você tem uma carreira na qual deve se destacar, tem uma vida social atribulada e ainda tem um trabalhão para se manter arrumada. É muita coisa para uma vida só. Você acorda todos os dias precisando de coisas como: começar um regime, entrar na academia, marcar manicure, fazer compras, pagar as contas. 24 horas se passaram e você ainda não fez nem 3 das 35 tarefas que tinham no seu palm. Mas, ainda assim, você está feliz. Homens não são mais a prioridade na sua vida. Será??? Vamos para mais um dia na vida desta mulher.
CAPÍTULO 1 – ACORDANDO
Você acorda pela manhã e percebe que não tem ninguém ao seu lado. Ótimo! Você não tem que se preocupar em acordar antes dele para escovar os dentes correndo, pode usar a privada da maneira que bem entender e dar escova sem se preocupar com o barulho.
O dia já começou bem. Tomei meu café, mas tenho que ser bem moderada – não estou malhando e hoje vai ter aquele evento super chique. Comprei o vestido há 3 semanas (um número a menos que o meu para tomar vergonha e emagrecer para o evento). Nesta festa, estará concentrado o m2 mais bonito da cidade. Vários prospects. Quem sabe lá eu não arranjo um namoradinho para levar para os eventos de família. Se não, pelo menos um PA. De acordo com meus cálculos, devem ter umas 3 semanas que não saio com ninguém e deve ser por isso que comecei a ter dor de cabeça constantemente. Será que falta de sexo causa queda de cabelo? Notei, no ralo do meu banheiro, mais de 100 fios, ou seja, mais do que o permitido, de acordo com a revista Cláudia. Bom, lá na festinha, meus problemas acabarão. Decote a La Catherina, boca a La Jolie e cabelos a La Aniston. Tudo em cima da cama organizadinho para a noite. Corri para o carro e lembrei que esqueci os óculos escuros e, pelo visto, vou ficar muito tempo no trânsito e posso adquirir um pé-de-galinha por causa do sol. A cidade inteira combinou de sair na mesma hora.
E lá vou eu, como milhões de pessoas, a caminho do trabalho.
CAPÍTULO 2 – NO TRABALHO
Cheguei no trabalho com 30 minutos de atraso e meu Outlook está igual à cidade: congestionado.
Vamos por partes: a primeira coisa a fazer é ler o horóscopo, ver qual é a atriz que faz aniversário neste dia e imaginar como ela reagiria diante deste Outlook. Segundo passo é pegar um café e ficar semi-depressiva ao pensar na atriz, escovada, maquiada e com um vestido fantástico rindo da sua cara e dizendo:
- Que idiota que você é. Você acha mesmo que eu não tenho uma assessora para fazer isso para mim? Enquanto você abre o seu Outlook, eu estou acordando para ir para a minha sessão de massagem (e acaba com ela soltando uma gargalhada maligna).
Puff!!! Eu acordo e penso no livro “Não deixe para amanhã o que você pode fazer agora”. Qual era mesmo o primeiro tópico? Ahhh…
Tópico 1: Faça uma coisa de cada vez.
Está bem.
Email 1:
Oi amiga,
Perdi 3 kg pra festa e entrei na minha calça nova. Conseguiu atingir a meta? Torço por você.
Obs: não se esqueça de depilar.
Amor, Miguxa
Pausa para digerir o primeiro email. Pronto.
Vaca. Quem ela pensa que é para falar estas coisas? Alguma Gisele? Ela bem que precisava era perder mais uns 10 kg, isso sim. Deixe-a. Quando eu chegar com meu novo decota na porta da festa, vamos ver se ela vai continuar com todo este amor.
Email 2:
Gata,
Se não tiver carona pro evento, eu vou com + dois amigos. Posso te buscar e você ainda vai no banco da frente comigo.
Bj gostosa
Uma pausa ainda mais longa do que a primeira…
Acho que terei que avisar a este rapaz que a festa é proibida para menores. Ai Senhor, ajudai esta pobre alma. Só ele para achar que, com todos os prospects na festa, eu vou pegar uma carona justo com ele.
Email 3:
Preciso adiantar a entrega da pesquisa para o cliente, que seria no dia 30/7, para amanhã: 2/7. Passe os dados tabulados para o meu email até às 17 horas.
Att,
Pedro Alcântara
Diretor executivo
Preserve o meio ambiente, pense antes de imprimir.
Pausa para eu explicar os detalhes: o cliente é uma marca de cuecas conceituada no mercado e quer saber se está apertando muito a frente da cueca e outras perguntas mais.
Número de homens para serem entrevistados: 200.
Número de entrevistados até o dado momento: 120.
Respire, pegue esta pesquisa e passe para toda a sua lista de: Orkut, Facebook, MSN, blog e o que mais você tiver de comunidades e sites de relacionamentos.
Organização do envio:
1 – Amigos que eu nunca vou beijar
Please, preciso disto urgente, senão perco o emprego. Eh para hj. Não deixe uma amiga desempregada.
Bjuuuu
Anexo: underwear.doc
2 – Amigos que eu já beijei
Oláááá, vc poderia me ajudar com esta pesquisa? Eh p/ hj. Prometo que, se você me ajudar, eu vou conferir se toda a pesquisa procede.
Hehehehehe
Bj gostoso pra vc. De sua amiguinha.
3 – Amigos que eu ainda quero beijar
Olá, preciso completar uma pesquisa aqui para o trabalho sobre underwear. Você teria um tempinho para responder algumas perguntinhas? Vou aguardar para vermos quando podemos reunir.
Beijo e obrigada.
Obs: é lógico que vou perder estas pesquisas, mas, pelo menos, terei com quem jantar.
Depois de passar a manhã inteira respondendo emails e enviando pesquisas (e louca de fome) brotaram mais alguns emails no meu Outlook. Vou almoçar e, depois, volto aos emails.
CAPÍTULO 3 – NO ALMOÇO
Almoço é um tópico muito importante do meu dia porque , como o meu único problema é aquele maldito pneu de trator que fica acima da minha calcinha bege de algodão, eu não posso deixar maior. Você, perto do 30, começa a perceber como consegue reter líquido com uma facilidade surpreendente. Um camelo perde feio. E outra coisa que você nota é que, aquelas dietas da sopa, da água, do ar e da fotossíntese não fazem você emagrecer tão rápido como anos anteriores. O que era simples torna-se um suplício. O meu almoço para dias especiais é composto por: 3 folhas de alface, ½ tomate e 1 bolinha de queijo mussarela de búfala light. Minha barriga continua pedindo, mas não podemos fazer todas as vontades deste ser estranho ou o nosso corpo acaba virando uma bola. Tomo um expresso para digerir o resto da minha parede do estômago e começo a minha tarde.
CAPÍTULO 4 – A VOLTA DO ALMOÇO
Os emails recebidos foram divididos em pastas:
1 – Pesquisas
1.1 Amigos sem beijo
1.2 Amigos com beijo
1.3 Prospects
Agenda após os emails recebidos:
2 encontros com prospects
1 encontro com um já beijado
Pausa para um pensamento solto: a vaca da minha amiga até que lembrou bem. Eu preciso depilar A.S.A.P. Como já têm 3 semanas que não saio com ninguém, também têm 3 semanas que não depilo perna e virilha e não faço as unhas do pé. Ai ai. Não tem nenhuma depiladora com horário pros próximos 3 meses. O jeito é ir no Jacques Janine. Só para sorrir são R$ 50,00, junto com a depilação e o pé e mão: R$ 200,00. Tudo bem, vai valer a pena. Depilação em véspera de eventos é como apostar no cavalo número 2 – no final, sempre vai ser vitória. Marquei para as 18:30h. Esta é uma das vantagens de trabalhar ao lado do shopping. Consegui arrecadar 92 pesquisas e abençoei todos os sites de relacionamento. Às 17:30, estava em processo de tabulação de dados. Vejam só: VITÓRIA na minha carreira. Terminei a missão impossível do sacana do meu chefe e consegui receber um parabéns dele e uma estrelinha dourada na testa. Agora, após as conquistas profissionais do dia, vou preocupar com os problemas que, realmente, importam: faltam 15 minutos para a minha depilação. Arrumei as coisas, desliguei o computador e lá fui eu, que nem uma louca, para o salão.
CAPÍTULO 5 – OS PREPARATIVOS
CAPÍTULO 6 – O EVENTO
Chegando em qualquer evento, a coisa mais importante é a saída do carro: você deve sair confiante, destemida, nariz empinado, dar um sorriso amarelo para o manobrista para se dizer metida e uma piscadinha para ele se sentir feliz e não demorar com o seu carro na saída. Após eu explicar para você como tudo deve ser feito, na primeira oportunidade que eu tenho, cago toda a história: saí tropeçando do carro, quase caio no chão e acabei nos braços do manobrista. CATÁSTROFE. Será que alguém bater uma foto desta situação bem na hora? A próxima matéria de Caras vai ter uma foto na hora da semi-queda com highlights: “RP nos braços do manobrista”. O que vai ser da minha vida agora? Tentando recobrar a consciência, saí dos braços do manobrista com uma única certeza: meu carro vai chegar muito rápido na saída. Então, se eu sair com alguém porque este alguém deixou a sua Mercedes em casa, posso dar uma carona no meu Fiestazinho que ele vai chegar voando na saída. Só o manobrista que vai ficar um pouco triste, pois estava esperando que ele fosse o escolhido. Fechando esta parte macabra do início de evento, descobri que, para tudo, há solução.
Entrando na festa, foram lançados alguns olhares para mim. Ainda atordoada, fiquei sem saber se era por causa da semi-queda ou por causa do meu decote. Preferi pensar na segunda opção, apesar de ter perdido toda a minha auto-confiança quando desci daquele carro. Desci as escadas como havia planejado fazer no carro: com o nariz em pé e a passos lentos, mirando um olhar no além (e o outro na escada. Não poderia passar por outro vexame). Procurei alguém para sociabilizar e encontrei minha amiga. Encostei nela correndo para que fosse passado um relatório completo.
Relatório: muito casal, alguns gays e vááriosss prospects, como eu havia imaginado. Fomos para a mesa de bebidas sorrindo, sem saber nem do quê. Chegando nela, tinha um carinha ao meu lado que deu um sorriso de canto de boca. Sorri de leve, mas não dei tempo para ele papear. Tinham mais homens bonitos do que eu pensei. Peguei meu espumante e fui para um canto do salão aonde eu pudesse ter uma visão ampla de todo o evento. Eu e minha amiga ficamos conversando nada para fingir que tínhamos assunto e olhando para todos ao mesmo tempo. Passaram uns dois esperando que a gente olhasse. Quase aprovado, mas eu achei que dava para esperar mais um pouco. Não eram feios não, mas os maravilhosos estavam do outro lado do salão. Vamos pesquisar só mais um pouquinho.
De repente, um amigo acenou para mim do outro lado do salão. Minha amiga pareceu um pouco afoita em sumir. Liberei ela e lá vai eu, passeando pelo salão. Os carinhas mais ou menos que tinham passado por mim ficaram me comendo com os olhos e eu, claro, imaculada e linda indo em direção a meu amigo. Reparei que, quando encontrei o meu amigo, os dois pararam de olhar. Não chegou a ser tão preocupante porque eram só 2 em 2.000.
Resolvi que era mais interessante começar batendo um papo com amigos que eu via ocasionalmente. Depois de 20 minutos, tinha eu e mais quatro viados lindos ao meu lado. O papo estava muito bom e não vi o tempo passar. Depois de muita risada que eu me dei conta: as pessoas estavam bêbadas, eu estava no local certo e pessoas erradas. O que deu em mim? Dei um beijo no meu amigo e fui andando para o outro lado do salão. Quando dei por mim, os Tudo de Bom estavam trêbados, os mais ou menos estavam de mãos dadas com outras mulheres e….
…
…
… minha amiga estava SE AGARRANDO com um dos mais ou menos que vimos no início da festa atrás de uma pilastra. O que aconteceu com todo mundo? Todos surtaram? Não entendi mais nada. Minha cabeça começou a virar e eu não acreditava no que estava acontecendo. Todo o trabalho que tive foi por água abaixo. Meu decote não servia mais pra nada.
Ao lado da mesa de bebidas tinha um banquinho e foi lá que eu comecei a digerir a catástrofe. Sentei e olhei para o nada, esperando uma resposta para todo este mistério do mau no qual eu estava imersa. Tive um outro princípio de depressão no mesmo dia. E nem estou de TPM.
Depois de uns 10 minutos sentada olhando pro além, eis que chega uma figura adônica ao meu lado. O cara mais lindo que eu vi na festa. Neste momento, percebi como a minha sorte havia virado. Quero ver agora eu sair daqui solteira. Ou, pelo menos, sem a história de uma figura máscula em cima de mim esta noite. Parecia cena de filme: ele tinha uma fumacinha saindo por trás dele e as luzes iluminando de trás pra frente… ele estava chegando do céu. Olhou para mim como se estivesse perguntando se eu estava só. Não, se o lugar estava vago (vamos ser honestas). Eu olhei para ele e soltei com a voz mais sexy que poderia ter conseguido naquele momento: “Pode sentar”. Ele sentou e eu não fiquei olhando diretamente nos olhos dele.
Acho que deveria ter olhado diretamente nos olhos dele para perceber como ele estava bêbado e a ponto de vomitar atrás do banco no qual eu estava sentada e acabar com toda a magia de uma vida. Catástrofe à milésima potência. Esta noite toda não passava de um pesadelo do qual eu iria acordar e ver que a festa nem havia começado. Demorei a perceber, mas tudo era a mais pura verdade. Levantei e o vi suplicando para ajudá-lo. Tudo que eu queria era ter uma arma naquele momento. Ou uma mangueira para meter água na cara dele. Saí andando para um corredor perto da cena do crime e encostei-me à parede para meditar. Já não era nem mais para pensar no que aconteceu de errado. Era para que este pesadelo real acabasse de vez. Comecei a pensar nas coisas boas da minha vida: na minha família, no meu trabalho bem-sucedido, nos meus travesseiros, no meu cobertor, no meu pijama, em uma caixa de chocolate que havia escondido em cima do armário para uma emergência de grande porte. Este era o dia. Chocolate suíço era o RED CODE de qualquer situação. Não estava nem tão bêbada a ponto de não conseguir pegar uma cadeira e apanhar os mimos dos deuses.
Na esquina do corredor, nem tinha percebido um rapaz que começou a puxar assunto. Eu não estava muito aberta a conversas em um momento tão desastroso, mas não tinha outra opção. Ou conversava ou ia embora. Optei por conversar e ficar com sono suficiente a ponto de só conseguir engolir 25 bombons da caixa tamanho família que continha 45. A primeira coisa que ele falou foi: – Sinto muito pelo meu amigo. Foi ele quem vomitou ao seu lado.
Com a raiva tomando conta de mim, pensei naquele monstro horripilante e fedorento ao meu lado, mas percebi que não podia matar o cara só por ser amigo desta figura. Pedi para mudar de assunto e vi que ele era advogado de uma empresa grande que ficava ao lado do prédio onde eu trabalhava. Ele almoçava no restaurante na mesma rua que eu. Que coincidência você achar uma pessoa que trabalha tão perto de você numa cidade tão grande. Batemos uns 30 minutos de papo e o sono bateu. Pedi desculpas e licença. Amanhã era outro dia e precisava descansar. Se não era boa em paquerar, pelo menos, deveria ser boa em trabalhar. E isso eu fazia muito bem. Isso eu era excelente. Acho que depois deste pensamento, diminui o número de chocolates para 10. Ele pediu meu telefone, mas não tinha papel pata anotar. Falei rapidinho e nos despedimos com um beijo no rosto. Ele nunca iria decorar o meu telefone, mas valeu a pena ter batido um papo com ele. Era uma graça o rapaz. Pena que não tinha visto ele antes. Mas com o meu estado emocional distorcido por causa dos problemas anteriores, não consegui perceber isso na hora.
O manobrista deu uma risadinha pra mim e foi buscar meu carro. Foi até rápido, como havia pensado. Entrei no carro e tirei o salto. Como aliviou os pés, mas a cabeça começou a ficar a mil. Por que não tinha visto este cara antes? Por que não anotei o telefone dele? Por que não consegui uma caneta para ele anotar o meu? Por que não fiquei mais tempo na festa? Estes porquês começaram a me sufocar e eu preferi fazer um respiratório que aprendi na “Bons Fluidos”. Até que funcionou. Aprendi, há um tempo, a não menosprezar estas dicas de revistas. Elas podem ser bem úteis na hora do desespero.
CAPÍTULO 7 – EM CASA
Cheguei em casa e, no elevador, comecei a tirar o vestido. Foda-se se tiver uma câmera escondida e ou se o vizinho aparecer na porta na hora que tiver abrindo o apê. Se bem que, um senhor de 75 anos, se abrir a porta às 3:50 da manhã e me ver pelada e ter um infarto, ele estava predestinado a morrer. Desculpa, mas é a mais pura verdade. Nada destes pensamentos viraram realidade e entrei no apê jogando uma peça de roupa em cada canto da casa. Acho que preciso começar a ser um pouco mais organizada para a minha empregada não ter que pedir demissão por justa causa. Entrei no chuveiro e foi o banho mais gostoso que eu tinha tomado na vida. Finalmente tinha algo quente tomando conta de mim. Era só água, mas, porra, naquele momento era a água mais quentinha e gostosa que tinha passado pelo meu corpo. Pensei no trabalho e em tudo o que eu iria fazer no outro dia e não pude deixar de ficar satisfeita com ele. Era algo que eu gostava de fazer e que me dava estrelinhas douradas mentais a cada trabalho finalizado. Coloquei o meu pijama mais fofo, mais velho e mais cheiroso e fui dormir. Tentei não pensar na noite. Tentei não pensar no advogado. Como não consegui parar de pensar, comecei a imaginar que ele seria o estagiário do dono da empresa. Que o carro dele era um Gol 87 e que ele não conseguia passar nem um fax com competência. Mas a cara dele e o papo não negavam que ele era inteligente.
Fechei os olhos e acordei num pulo com o despertador tocando “You´re beautiful”. Parece que nem dormi. Que ressaca. Que sono. Que merdaaaa!
A rotina começou. Peguei meu palm, percebi que as tarefas estavam intactas e decidi que seria o começo de uma nova era. Odiava os homens e não precisaria deles para ser feliz. Tirei uma folha do meu caderno e escrevi bem grande: “Homens. Quem precisa deles? Eu preciso ser feliz.”. E comecei a entoar o meu mantra. Tomei banho e inventei até um ritmo pra cantar este mantra. Algo bem Yoga e bem cantos gregorianos. Muito brega, mas acho que vai funcionar. No café da manhã. Comi pão normal com manteiga e tomei leite integral com Toddy. Que se dane. Começarei a academia hoje a noite. Não importa que seja quarta-feira. O livro me mandou fazer uma coisa de cada vez e começar logo as minhas tarefas, para poder me livrar logo delas. Então, que seja feita a pior das tarefas: ir para a academia. Coloquei o meu perfume importado antes que ele estrague por falta de uso e fiquei linda para o meu dia de ser uma nova mulher. Passei até na floricultura no caminho do trabalho para comprar um cacto bem bonito. Cactos são muito interessantes e têm tudo a ver com o meu momento. Eles só precisam de água uma vez por mês. Por que eu precisaria, então, de homens todos os dias da semana? É isso: sou uma nova mulher, numa nova fase, com o símbolo da falta de necessidade – o cacto.
CAPÍTULO 8 – NOVAMENTE NO TRABALHO
No trabalho, antes de ver o meu horóscopo, achei uma imagem de um cacto no Google e defini como plano de fundo. Nunca mais poderia esquecer do meu símbolo de independência e força. Vi o meu horóscopo, mas não cheguei a ver a atriz que faz aniversário. Ela que se foda. Sou mais eu mesmo. Eu estou batalhando todos os dias enquanto esta puta está tomando massagem de um profissional (do sexo). É uma viada mesmo. Aliás, não sei porque estou tão revoltada. Era para eu estar feliz – sou independente, linda, inteligente. Deixa pra lá.
Tomei um café bem forte para depois abrir o Outlook. Mais um dia de Outlook super lotado. Muitos dos emails eram sobre o dia anterior. Preferi nem abrir. Coloquei em uma pasta separadinha para, se eu tivesse vontade ou coragem, ler depois. Mergulhei de cara no trabalho. Esqueci do mundo e até do meu celular no silencioso dentro da bolsa a manhã inteira. Foi bom. Tinha ligação de minha amiga, minha mãe e do dentista. Além de dois números desconhecidos e duas chamadas privadas. Fiquei curiosa, mas decidi ligar após o almoço. Queria pensar no meu momento como mulher. No almoço, nada tirava a minha concentração. Não vou mentir que pensei duas vezes em quem poderia ter me ligado daquele número, mas desviei o pensamento para o frango grelhado que estava prestes a saborear. Suco de clorofila e adoçante. Me senti uma planta, mas achei que seria muito saudável.
Cheguei levíssima no trabalho a peguei meu celular correndo. Chamadas não-atendidas: telefone misterioso. Tirei o telefone do gancho e comecei a discar. Algo me dizia que poderia ser alguém especial. O advogado, um paquera da pesquisa, um ex-namorado…Tuuuuuuuuuu, tuuuuuuuuuuuu,: – AlôôÔ???.
- Mãe???
- Oi filhaaaaa. Liguei pra avisar que estou com celular novo. Só para você deixar anotado. Liguei do meu antigo, mas a linha está sendo desligada amanhã.
Tu, tu, tu… Não poderia agüentar. Dei na cara dela. Ela me iludiuuu.
Não sei do que, afinal, estou me recuperando de um mal, mas me iludiu.
Continuei a percorrer todas as tarefas no Project. Uma era parar de fumar, outra era parar de comer chocolate, academias, economias, etc.
Enquanto trabalhava, programava como iria seguir o crono. No meio da tarde o telefone tocou. Fiquei até com medo de que fosse minha mãe com uma terceira linha, mas atendi: cliente. Tudo bem; executo a tarefa de sorrir, como farei com todas as pessoas que amo e que odeio, e falei gentilmente com ele. Terminei o meu trabalho e me dei um presente como há muito eu não me dava – achei o telefone de um Day Spa e pedi uma Hour Spa para tomar um banho de ofurô. Paguei a modesta quantia de 150,00 por um banho, mas saí muito mais aliviada e feliz. Meu dia está completo. Agora só falta o meu bendito pijaminha para eu ser a mulher mais feliz do mundo. Comi só mais dois bombons da caixa inteira (o que é uma vitória e um milagre) e comecei a ler um livro. A meta eram quatro livros por mês. Se não vou sair com ninguém, preciso exercitar a mente. Na página 50 eu já estava morta e sem forças para virar a página. Eram 22 horas e eu não sairia da cama por nada deste mundo. Era a coisa mais gostosa que eu poderia fazer: dormir o sono dos justos (é justo eu não ter ninguém pra dormir comigo? Forget it.). Boa noite.
CAPÍTULO 9 – MAIS UMA VEZ, EM CASA
Às 22:15, o telefone começou a tocar uma canção dos infernos. Eu estava no pré-sono; aquela hora que você toma susto, às vezes tem a sensação de que está caindo e abre os olhos rapidamente. Número desconhecido. Fiz um download mental de todos os palavrões que poderia ter decorado em toda a minha vida e já estava preparando para soltar um arroto verbal quando a voz de um anjo ecoou no meu cérebro. Era o advogado pedindo desculpas por estar ligando tão tarde, mas ele tinha que terminar um contrato e só pôde sair do trabalho naquela hora. Que coisa mais linda. Ele é um fino. Claro que eu o desculpei na hora. Não é toda hora que você ouve uma coisa tão sonora e educada. Pensei nos pedreiros quando passamos por uma construção que falam tudo o que você não ouviu em uma vida (mas se você não ouvisse nada, teria uma depressão para o outro resto da sua vida); pensei no meu ex-namorado no final do namoro me chamando de imbecil. Isso não aconteceria com este lorde. Ele seria o meu príncipe encantado. Ele falou que passaria em casa para me pagar para jantarmos. Falei que ele poderia passar em 10 minutos que eu estaria pronta e desliguei com uma planilha do Project aberta na minha mente e todas as tarefas que deveriam ser executadas neste período tão longo que eram os 10 minutos:
30 segundos: separar a maquiagem e a roupa
30 segundos: separar o sapato
2 minutos: maquiagem
1 minuto: confirmar se a lingerie está combinando com a roupa e o sapato
10 segundos: colocar papel toalha debaixo das axilas para não suar por causa da corrida
50 segundos: se olhar no espelho
1 minuto: escovar os dentes e enxaguante bucal
30 segundos: perfume correto
3,5 minutos: sentar no sofá e repor todo o ar que eu perdi durante esta maratona
Perfeito, ele chegou em 15 minutos, mas não tinha problema. Deu tempo de repor o fôlego e descer como se já estivesse pronta há um século.
CAPÍTULO 10 – O PRIMEIRO ENCONTRO OFICIAL
O carro dele era lindo, o som era bossa nova e a climatização era perfeita. Ele era mais do que um príncipe; era um príncipe e uma pessoa de bom gosto. Perfeito. Acho que os anjos da boca mole me ouviram e disseram Amém. Fomos jantar massas. Não lembrei nem da dieta que estava no meu primeiro arquivo mental do Project. Mas não tinha problema porque sexo não era algo que estava incluído e eu acho que um seria perdas e outro seria ganhos. Dava para equilibrar todo o contexto. Um vinho suave muito gostoso e uma noite regada a “bom gosto”. Perfeita. Ainda bem que não comi muito. Controlei a minha ânsia de comer massas. Indo para o meu apartamento, ele mostrou quem ele realmente era – lembrei do lobo mau que te ouve melhor, te enxerga melhor e ainda te come. O cara sabia fazer o trabalho dele. Macacos me mordam ou não, ele sabe morder como ninguém.
Tinha um vinho na despensa até bonzinho e esqueci só de uma coisa: arrumar a cama. Ai ai ai, ele vai perceber que já tinha ido dormir e se eu desmentir, ele vai me achar uma porca por não ter arrumado a cama. Se bem que eu não arrumo e ela só é arrumada quando a empregada está lá. Hoje não foi um destes dias. Então, as duas coisas estavam certas – nem arrumei e já tinha ido dormir. Acho que, sempre que uma pessoa chega na casa da outra, pede para ir no banheiro primeiro. Eu tinha que usar este tempo de forma super inteligente. Sem parecer que estava correndo e com pressa para deixar ela um brinco. Pensei em tudo isso e nem tinha chegado em casa ainda. Quando chegamos lá, eu perguntei se ele não queria subir e ele aceitou. Estava tudo formigando e eu estava à milhão. Subimos e executei as tarefas de maneira exemplar e ele não notou nadinha. Liguei a TV e consegui conectar meu iPhone à TV. Sorte minha que tinha comprado um Home Theater há duas semanas e o som saiu perfeitamente.
Ele, sentado no sofá, aguardou com as mãos cruzadas, olhando todos os cantos da sala sem prestar muita atenção. Depois de mais de uma prova de 100m (fazer a cama em apenas 1 minuto), pensei por mais 1 minuto se deveria mudar a roupa para algo mais sexy. O que será que ele pensaria de mim?
a) preciso dar
b) se eu não der hoje, não darei mais nunca
c) aff!!! Desesperada
d) NDA
Melhor não arriscar. Com o mesmo vestido, voltei para a sala. Ofereci um vinho e ele aceitou na hora. Para quebrar o gelo criado pelo espaço de tempo de 5 minutos, ele perguntou do sofá. Era uma peça de 3 lugares com um puff de extensão do mesmo tecido. Ótimos para filmes por virar uma cama de casal quando quero assistir um. Antes mesmo que eu começasse a falar tudo o que eu sabia sobre arquitetura desde os tempos da Grécia antiga (meu arquiteto me queria como cliente de qualquer jeito , me dando uma aula de 4 horas de feng shui, quadrados e círculos, rococó, art nouveau e eu, desejando, a cada segundo, que ele não fosse gay e não gastasse meu precioso tempo falando algo que eu nunca quis aprender).
Bom, voltando: antes que eu começasse a falar, ele me puxou pela cintura e começou a beijar minha barriga (Sexy!) – GOLPE BAIXÍSSIMO. Lembro do vestido ter caído em cima da TV de plasma e ele ter gemido alguma coisa sobre o meu perfume. Caí na real quando, no meio do sexo selvagem que estava sendo praticado,o meu puff, que era uma extensão do belo sofá, começou a patinar na sala, abrindo um canyon e nos jogando ao chão. Eu estando por baixo, sofri muito mais. FODA-SE O GALO que apareceu. Eu estava dando. Ele ficou preocupado comigo, me segurou e tentou me carregar.
Será que ele não havia entendido a gravidade da situação? Eu estava dando e ele queria parar por conta de um galinho de nada…
Furiosamente, juntei os nossos corpos no chão, olhei bem fundo dentro dos seus olhos e tudo o que consegui falar foi:
- Con-ti-nueee!!!
Não sei bem se ele ficou assustado com o meu olhar assassino ou preocupado com a minha cabeça, mas tudo acabou bem.
Depois de 30 minutos, quando recobrei o juízo, fiz uma breve análise do cenário. Os pensamentos começaram a brotar. Uma série de interrogações povoou a minha mente e, a pior de todas foi: – Ele está com uma cara muito assustada. Será que ele vai querer saber de mim depois disso? Será que ele me achou uma vaca por ter dado no primeiro encontro? Será que ele vai pegar as roupas dele e colocar debaixo do braço e correr pelo prédio todo dizendo que todos têm uma vizinha desesperada? O QUE SERÁ DA MINHA VIDA???
CONCLUSÃO: Eu nunca mais vou dar.
Minha noção de tempo é perfeita e eu percebi que todos estes pensamentos passaram pela minha cabeça em um período de 15 segundos.
Ele olhou para mim e eu rezei para que ele, pelo menos, fingisse que não estava tão assustado.
Quando ele pegou fôlego para falar tudo o que queria, simples e objetivas, as palavras saíram:
- Você está com um galo grande na cabeça. Posso pegar um pouco de gelo? Você fica aí, deitada no sofá, e eu fico com você aqui hoje. Teria algum problema?
Não sabia se ria, se chorava ou se o pedia em casamento. Naquele momento eu só tinha uma certeza: eu iria acordar com ele ao meu lado.
FIM
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Adorei !!!
Estou morrendo de pena das mulheres.
A partir de agora, vou trata-las bem melhor do que já trato hoje.
E por merecimento.