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O Trabalho

Estava há 48 horas de plantão na frente do computador. A deadline daquele projeto já estava dead e em estado de putrefação e o cliente já estava ensaiando algumas cenas do filme “ Jack, o Estripador” com uma foto minha. Ao longo de duas semanas, a única coisa que conseguia passar pela minha cabeça eram dados estatísticos e campanha online. Sonhava com rankings, Alexa, comentários em blogs. Cheguei a comer um queijo estragado porque nem estava prestando atenção no sabor de qualquer alimento que passava pelas minhas papilas gustativas. O que atrasou meu trabalho em mais 12 horas por conta de uma leve infecção intestinal. Após a entrega do trabalho, fiz a contabilização dos custos e ganhos:

GANHOS:
R$ 12.000,00 na conta (free taxes)
Cliente satisfeito
Portfólio + gordinho

CUSTOS:
Envelhecimento precoce
Gorduras acumuladas
Leve aumento da minha gastrite
Perda de 4 eventos sociais
Briga com um pretendente (ohhhh….)
Dores de cabeça constantes…
…melhor não sinalizar tudo

Mas eu achava que o ganho maior deste trabalho foi quando uma amiga foi me visitar e pedido da minha mãe para saber se eu ainda respirava.

A Amiga

Ela chegou lá em casa, abriu as cortinas, reclamou que a casa estava suja, reclamou que só tinha água na geladeira, perguntou como eu me limpava após ir ao banheiro e se eu ainda escovava os dentes (obs: tinha acabado o papel higiênico e a pasta de dente, mas eu preferi mentir dizendo que tinha acabado no dia anterior para ela não encher mais o saco).

Ela fez duas ligações de emergência para uns amigos em comum. Só que, ao invés de pedir comida (o mais óbvio), ela pediu cerveja e vodka. E pediu para trazerem Mentos e guardanapos (para ela: pasta de dente e papel higiênico). Nossos amigos chegaram lá em casa, também reclamaram que a casa estava um “chiqueiro”, que não podiam limpar a bunda após uma “barrigada” e queriam saber como iriam lavar a boca para tentarem beijar umas gatinhas na festa que iriam depois de lá. Depois de 1 hora, 1 arrependimento por parte dos garotos, 4 cervejas, intestino congestionado e nada de escovar os dentes, os rapazes já estavam de malas prontas para atacar no próximo QG.

Minha amiga, que tinha uma visão geral do que estava acontecendo, e querendo dar um pouco de vida para a minha vida, decidiu ligar o som bem alto, fazer uma mistura de gelo, água, vodka e um restinho de adoçante que achou ainda dentro da validade. Perguntou quanto eu ganhei no trabalho e disse que eu iria reservar uns R$ 5.000,00 para fazermos uma viagem dentro de 1 mês. Tomei um susto.

A idéia de ficar longe do meu trabalho, do meu computador e do meu stress começaram a me dar vertigens (ou era a vodka agindo com mais velocidade por falta de comida?). Bom, já estávamos altas quando a minha amiga teve a grande idéia de fazermos um cruzeiro. Ela achou que eu poderia fazer uma desintoxicação psicológica dos meios eletrônicos. Afinal, ninguém iria querer ficar vendo emails ou pesquisando números em um lugar onde se paga $ 30,00 (dólares, viu???)/ hora de internet com uma velocidade de 28kbps. Falei com ela que iria pensar e daria a resposta na outra semana. Assim, teria tempo para arranjar um atestado médico e dizer para ela que estava com uma doença infecto-contagiosa e que só poderia encontrá-la uns 2 meses depois. Assim, ela já teria desistido daquela idéia absurda de ficar longe de acesso fácil à comunicação virtual.

Mas ela deve ter colocado alguma coisa na minha bebida. Tudo começou a ficar distante, leve… e me vi sentada ao lado dela, vendo alguns pacotes turísticos para cruzeiros. Tudo, na hora, pareceu muito legal, eu ria muito e já estávamos achando que iríamos virar piratas do mar. Eu já estava com um guarda-chuva na mão, gritando para o meu gato de estimação que era um motim. Nesta hora, só curei um pouco da cachaça para tirá-la de cima da janela – quando ela estava achando que era Rose e, subindo em um banquinho, começou a gritar: “I’m flying, Jack!!!”. Saí correndo e tirei minha amiga da janela.

Com uma facilidade enorme de criar nossas histórias, começamos a pensar que tínhamos achado um grande tesouro em uma ilha deserta.
OBS: Eu sempre escondo o meu cartão de crédito embaixo da minha cama. Assim, penso que ele não existe nas horas de futilidade. Se precisasse comprar um computador, eu o pegava, mas quando saía de casa e pensava em ir para o shopping comprar sapato, mas o tinha esquecido, eu não voltava para pegar. Psicologia feminina de uma mulher que gosta mais de eletrônicos do que de sapato (0O)…
No caso, o tesouro ela o próprio cartão. Cavamos a cama e encontramos o meu cartão de crédito. Pulamos de alegria e fomos gastar a nossa fortuna na frente do computador.
Várias fotos de cruzeiros, muita bebida, comida, festas, colares, havaianos em frente à piscina… mas o que mais nos chamou atenção foi uma foto que conseguimos ver antes mesmo de perder a visão por conta do teor alcoólico da noite: eram 2 rapazes ma-ra-vi-lho-sos, musculosos, com um sorriso cor de neve. O melhor de tudo é que eles estavam nos chamando para o cruzeiro do qual eles faziam parte. Depois de um tempo parada, olhando para a foto e apreciando aquelas coisinhas fofas, jurei de pé junto para a minha amiga que o da direita tinha piscado para mim. Minha amiga gritou que era um sinal! Um sinal de que AQUELE era o cruzeiro certo para nós. E acrescentou que não era todo dia que um cara como aquele entrava no meu computador e ainda ficava me paquerando. Fiquei irritada com aquele comentário no início. Mas, no fundo no fundo, ela tinha razão. Pensamentos: “e se uma piranha fosse no meu lugar e ele achasse que eu não queria nada com ele?”. Eu pude perceber a tristeza nos olhos dele e não iria permitir que nada disso acontecesse.
Sacamos os nossos cartões de crédito e começamos a digitar: números, nomes, validades, códigos de segurança… A data do cruzeiro seria para um mês depois. Não pensamos muito na hora, mas teríamos tempo para nos organizar, escolher biquínis, roupas, maquiagem, correr 15 km/dia até ficarmos saradíssimas para os dias da piscina. Além de comprar: cangas, secadores novos, calcinhas, preservativos, gel, engovs, etc. Enfim, o kit básico para 7 dias de viagem (tentando não ultrapassar o limite de peso da bagagem por pessoa e fica passando vergonha como na última viagem (que tivemos que aumentar o nosso decote para colocar a segunda mala no nome de algum carinha da fila…).

CONCLUIR A COMPRA

Era um botão vermelho, chamativo, com brilho nas bordas. As outras informações da página pareceram tão superficiais, tão chatas de se ler. Dei um clique Tào forte neste botão que nem prestei atenção no que estava escrito embaixo:
Passagem pessoal e intransferível.
O cancelamento da mesma irá acarretar numa multa de 80% do valor da passagem..
Mas estas informações eram irrelevantes para duas mulheres solteiras, alcoolizadas, carentes e ricas (no momento! Não esqueçam que havíamos achado um tesouro há 30 minutos).

Blackout

O Outro Dia

Tudo estava muito estranho. Acordei no sofá com o cartão de crédito em uma mão e um guarda-chuva na outra. Palavras de que eu tinha conquistado os 7 mares ecoavam na minha mente. O sol batia nos meus olhos. O gato lambia a água de um copo que estava na mesinha de centro em frente ao sofá. . Coisas estranhas…
… Ao levantar, a ressaca me deixou paralisada no ar. Se eu fizesse mais um movimento brusco, o meu gato seria coberto de vômito. O que aconteceu? Eu bebi tanto assim? Que porra tinha acontecido para eu ter um guarda-chuva na minha mão? E o pior: Que porra tinha acontecido para eu ter meu cartão de crédito, que ficava escondido, na minha OUTRA mão?
Corri para o banheiro. Vomitei tudo o que não tinha no meu estômago e comecei a suar. Fui me arrastando até o Box para tomar um banho e coloquei em “super gelado”. Ouvi um barulho estranho no meu quarto. Algo se quebrando. Peguei meu guarda-chuva, que era minha única defesa, e saí correndo para o quarto. Chegando lá, minha amiga estava apoiada no meu criado-mudo, pisando nos restos mortais do meu vaso chinês e vomitando em Sidney Sheldon! Vaca! Como eu iria terminar aquele livro agora?
Tomei um susto ao ver que ela também segurava o cartão de crédito. Perguntei o que havia acontecido na noite anterior.
Ela, ainda vomitando, apontou o seu American Express para a tela do computador e, 3 segundos depois, gritou: “Nós vamos para o Caribe!!!”. Aquilo era um pesadelo! Tudo começou a voltar na minha mente e a girar bem rápido, como um carrossel quebrado, girando a 100km/h. Vomitei novamente. Só me faltava erra. Já estava planejando mil maneiras de cancelar a viagem quando, de repente, aquelas palavras das quais falei anteriormente, pularam da tela do meu computador e ecoaram no vazio da minha cabeça, já que o meu cérebro estava saindo pela minha boca naquele momento:
OQUEI!: um engov, um banho e eu adormeci novamente. Quando acordei, havia um bilhetinho da minha amiga

ALOHA! Faltam 29 dias. Vamos correr hoje?

Tentando Organizar os Pensamentos

Rasguei o bilhete de raiva. Mas a culpa desta bola de neve era toda minha:

1.    Se eu colocasse na minha agenda que deveria fazer compras, a geladeira não estaria vazia, minha amiga não chamaria nossos amigos, eles não trariam bebidas e não teríamos bebibo e, muito menos, ficado bêbadas. Meu cartão de crédito continuaria enterrado no meu colchão e eu não teria acessado a internet
2.    Se eu conseguisse 1 encontro a cada 15 dias, não ficaria carente e não acharia que uma foto estava me paquerando e piscando para mim
3.    Se eu ligasse, pelo menos, 1 vez por semana para a minha mãe (ou, pelo menos, atendesse o telefone quando ela ligasse) ela não estaria preocupada se eu estava viva ou morta e não ligaria para minha amiga, que não passaria lá em casa e não seria repetido a teoria 1.

Primeira coisa a fazer: ir ao mercado
Segunda: chamar uma diarista
Terceira: Alimentar o meu gato (ou seria a primeira?)

No mercado, percebi que precisava passar em todas as sessões. A casa precisava desde um simples papel higiênico até travesseiro. 3 horas depois e R$ 500,00 a menos na minha conta, voltei para casa.

Senti uma vontade enorme de quebrar a secretária eletrônica quando ouvi um recado piscando. Era minha amiga. O recado era assim: tinha uma música de salsa no fundo e a voz dela gritando no telefone
“ALOHA! Saudações da terra do fogo! Prepare todas as suas lingeries e compre um estoque de camisinhas!”.
E acabou com aquele gritinho que acabam algumas músicas de salsa: HUuuu!!!!

Para não surtar, me prendia à idéia de que precisava de férias para curar a minha gastrite nervosa. E foi com esta idéia que eu consegui simular o primeiro sorriso do meu dia.

PRÓXIMOS CAPÍTULOS:

Os preparativos da viagem
A fobia
O cruzeiro

Aguardem!

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